Recomendações COAR para recursos COVID-19 em repositórios

Em todo o mundo, pesquisas relacionadas ao COVID-19 estão sendo realizadas a taxas sem precedentes e o compartilhamento rápido de resultados de pesquisas iniciais em nível internacional é extremamente importante. Muitos governos e financiadores estão exigindo acesso aberto imediato às saídas do COVID-19 na forma de pré-impressões, dados e assim por diante. Com mais de 5.000 repositórios em todo o mundo oferecendo acesso aberto a dados, artigos, pré-impressões e outros produtos valiosos de pesquisa, a rede internacional de repositórios representa uma infraestrutura de pesquisa crítica. Uma abordagem coordenada e de interoperabilidade entre repositórios garantirá que os recursos do COVID-19 sejam amplamente disponíveis e detectáveis.


Para esse fim, o COAR está fazendo as seguintes recomendações para repositórios e redes de repositórios:


Repositórios

  • Trabalhe com suas comunidades locais para coletar qualquer resultado de COVID-19 ou outros resultados de pesquisa relacionados em seu repositório local, disciplinar ou nacional (consulte os títulos dos assuntos)
  • Garanta metadados básicos recomendados e marcação de recursos COVID-19 (consulte as recomendações básicas de metadados abaixo)
  • Garanta que seu repositório esteja sendo coletado por agregadores nacionais e/ou internacionais

Redes de repositório

  • Formar uma comunidade de prática para ajudar a curadoria dos metadados de recursos relevantes em agregações nacionais e regionais
  • Comunicar e promover o depósito de recursos COVID-19 com outros financiadores nacionais e regionais, governos e administradores de universidades
  • Recomendar o uso de esquemas comuns e interoperáveis ​​de metadados para metadados no seu país ou região
  • Verifique se as agregações nacionais estão sendo coletadas por outras redes para que seu conteúdo seja detectável

Elementos básicos de metadados recomendados

Algumas regiões e disciplinas já possuem requisitos de metadados mais abrangentes para suas pesquisas financiadas. Para oferecer suporte à descoberta, reutilização e confiança, a COAR está recomendando, no mínimo, os seguintes metadados para os recursos da COVID-19 em repositórios (e outros tipos de plataformas):

  • Título, criador, data
  • ID ORCID
  • Etiqueta de palavra-chave no assunto: COVID-19
  • Tipo de versão:  Vocabulário controlado por COAR, Rascunho V1
  • Licença CC (licença CC0, CC-BY ou  Open Covid )
  • Afiliação institucional, por exemplo, ROR (no campo “dc.description.sponsorship” ou “dc: contributor”)
  • se aplicável – Nome ou ID do financiador , por exemplo, FundRef  (no campo “Referência de financiamento” ou “dc.description.sponsorship” ou “dc: contributor”)
  • se aplicável – Nome / número do subsídio ou do projeto (no campo “Referência de financiamento” ou “dc.description.sponsorship” ou “dc: contributor”)

Para aqueles que não têm acesso a um repositório, deposite seus resultados de pesquisa no Zenodo, no arXiv ou em outro repositório aberto apropriado.

Este texto é uma tradução livre do original em inglês COAR Recommendations for COVID-19 resources in repositories, publicado em 25 de maio de 2020.

O surto de Coronavírus (COVID-19) destaca sérias deficiências na comunicação acadêmica

As grandes crises frequentemente revelam as normas ocultas do sistema científico, tornando públicas as práticas conhecidas na ciência. O surto de coronavírus (COVID-19) expõe uma verdade inconveniente sobre a ciência: o atual sistema de comunicação acadêmica não atende às necessidades da ciência e da sociedade. Mais especificamente, a crise manifesta duas ineficiências no sistema de pesquisa: o padrão para a ciência fechada e a ênfase excessiva na publicação elite, somente em inglês, independentemente do contexto e das consequências da pesquisa.

O texto completo, The Coronavirus (COVID-19) outbreak highlights serious deficiencies in scholarly communication, assinado por Vincent Larivière, Fei Shu e Cassidy R. Sugimoto, está disponível no LSE Impact Blog.

Pandemia de coronavírus pode revolucionar divulgação científica

Busca por vacina e medicamentos contra covid-19 sacode bilionário mercado editorial científico, com plataformas liberando acesso a artigos e publicando material ainda não revisado para agilizar compartilhamento de dados.

A atual pandemia de coronavírus, que infectou mais de 340 mil pessoas e matou mais de 14,7 mil até esta segunda-feira (23/03), pode revolucionar a maneira como se divulga ciência. Grandes editoras se comprometeram a liberar o acesso a artigos sobre a covid-19, a doença respiratória causada pelo novo vírus, em suas plataformas. O objetivo é compartilhar conhecimento o mais rápido possível e, assim, contribuir com a busca por uma vacina ou algum tipo de medicamento que possa amenizar os efeitos do coronavírus. 

O acordo, organizado pela fundação Wellcome Trust, foi assinado em 31 de janeiro por 117 editoras de publicações científicas. As signatárias disponibilizam os textos de duas formas: repositórios dos chamados preprints (pré-impressão) – artigos que ainda não foram revisados por outros pesquisadores; e artigos que já submetidos à avaliação, publicados em periódicos científicos.

Movimentos parecidos foram feitos com a Sars, em 2002 e 2003, e com o vírus zika, em 2015, mas a proporção da atual pandemia e o número elevado de estudos que estão sendo publicados diariamente em diversas plataformas é algo inédito e sem precedentes no mundo da ciência, afirma o diretor da plataforma Scielo, Abel Packer.

“A Sars teve uma solução muito mais rápida e provocou menos mortes [mais de 800], então o que ocorre agora com o coronavírus é inédito. O consenso no mundo científico é que o conhecimento precisa ser aberto o mais rápido possível, pois, assim, uma pesquisa ajuda a outra”, explica Packer.

Um artigo científico demora, em média, um ano para ser publicado, devido ao longo processo de revisão. Isso significa que ainda estaríamos a meses de conhecer o primeiro estudo sobre o coronavírus causador da covid-19, batizado de Sars-Cov-2. A divulgação de preprints agiliza o compartilhamento de dados entre cientistas.

A plataforma MedArchive, por exemplo, registrou 680 artigos sobre o coronavírus desde 19 de janeiro. São textos de diversos países, que analisam casos locais e buscam entender padrões da pandemia.

Gigantes do setor editorial científico, como a Springer Nature, criaram espaços específicos para estudos sobre a covid-19. Tudo aberto para quem quiser acessar e ler os estudos. Algo pouco comum para uma editora que chega a cobrar 200 dólares por uma assinatura anual de uma revista do seu catálogo. Em nota, a editora explicou que vê fatores positivos na publicação de preprints.

“As plataformas de preprints, onde os autores podem publicar seus manuscritos submetidos antes da revisão formal por pares, têm a capacidade de transformar significativamente o compartilhamento e o acesso antecipados à pesquisa primária. Também incentivamos os autores a compartilhar seus conjuntos de dados da maneira mais ampla e rápida possível para ajudar a apoiar a transparência da pesquisa e o engajamento com o avanço da descoberta”, informa a nota da Springer Nature.

Packer, da Scielo, também destaca a importância de dados que normalmente ficam em anexos não públicos. “Esses dados coletados em pesquisas que acabam não entrando diretamente nos artigos podem ser importantíssimos em outros estudos, mas muitas vezes se perdem porque ficam em anexos não disponíveis. A ciência precisa ser aberta também nesse caso”, diz.

A DW Brasil entrou em contato com a editora inglesa The Lancet, signatária do acordo da Wellcome Trust e que também criou um espaço aberto para artigos relacionados à covid-19. Até sábado, a plataforma contava com 148 estudos. Em nota, a editora informou que não conseguiria responder às perguntas encaminhadas pela reportagem porque todos os editores estavam empenhados em revisar “o grande volume de artigos sobre covid-19” recebidos.

Apesar de toda essa movimentação da comunicade científica, os cientistas Vincent Larivière (Canadá), Fei Shu (China) e Cassidy Sugimoto (Estados Unidos) afirmam, num artigo publicado em 5 de março sobre compartilhamento de estudos sobre a covid-19, que os esforços deveriam ser ainda mais amplos. Eles apontam que existem estudos sobre coronavírus desde a década de 1960 que podem ajudar também na busca atual por soluções, mas que 51% desses textos estão em plataformas fechadas para assinantes.

“Apelamos à comunidade científica – publishers, financiadores e sociedades – para que se mantenham fiéis à sua palavra. A declaração do Wellcome Trust é inequívoca: o compartilhamento rápido da pesquisa é necessário para informar o público e salvar vidas. Enquanto aplaudimos o trabalho que está sendo realizado em meio a esta crise, esperamos que este momento sirva como catalisador de mudanças”, expõe o artigo.

De cientistas para cientistas

O acesso livre a estudos científicos também tem um lado negativo: a falta de conhecimento do público leigo sobre como as informações devem ser assimiladas. Na última quinta-feira, o presidente dos estados Unidos, Donald Trump, afirmou numa coletiva de imprensa que testes indicaram que cloroquina, e um derivado seu, a hidroxicloroquina, seriam eficientes no tratamento contra covid-19. O presidente afirmou que o medicamento deveria estar disponível para tratar a doença “quase imediatamente”.

A procura pelo medicamento, usados por pacientes com malária, lúpus e artrite reumatoide, foi imediata. Nos dias seguintes, várias farmácias dos EUA já não tinham o remédio, prejudicando diretamente os pacientes que já fazem uso dele. A procura também aumentou em outros países, inclusive no Brasil.

Neste sábado, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) enquadrou como medicamentos de controle especial as substâncias hidroxicloroquina e cloroquina, para evitar que pessoas que não precisam efetivamente deles provoquem o desabastecimento do mercado. A imprensa brasileira relatou falta do remédio nas farmácias.

No mesmo dia, foi a vez do presidente Jair Bolsonaro apostar em pesquisas preliminares com a hidroxicloroquina. Ele divulgou um vídeo em suas redes sociais afirmando que o laboratório do Exército irá ampliar a produção do medicamento e disse ainda que “tem fé que brevemente o Brasil ficará livre do vírus”.

Neste domingo, o ministro da Saúde, Henrique Mandetta, alertou a população contra o uso da hidroxicloroquina, afirmando que a medicação tem “efeitos colaterais intensos” e que seu uso deve ser acompanhado por um médico. Mandetta explicou que os testes realizados com o medicamento foram feitos em poucos pacientes, então não é possível garantir a sua eficiência contra o vírus.

Casos como o da cloroquina ou hidroxicloroquina podem se repetir nos próximos dias por causa do clima de medo nos países que estão enfrentando a covid-19, e também pela falta de prática da população em ler artigos científicos, afirma Sabine Righetti, coordenadora da Agência Bori, criada em fevereiro para ser uma ponte entre pesquisadores e jornalistas.

“O conteúdo de artigos científicos é feito por cientistas e para cientistas. Um pesquisador não lê achando que aquilo é um fim, mas um passo a mais no estudo de determinado tema. Por isso o risco de um texto ser mal compreendido é alto, como aconteceu com a fala do Trump”, diz Righetti.

A Agência Bori foi fundada justamente com o objetivo de diminuir o distanciamento entre o conteúdo de pesquisas científicas e a população. A plataforma serve como intermediário entre jornalistas e cientistas, buscando esclarecer temas complexos. Sobre coronavírus, há um banco de informações com contato de 35 cientistas aptos a falar sobre aspectos da atual pandemia. Em pouco mais de um mês de funcionamento, a agência já soma mais de 600 jornalistas cadastrados .

Mercado bilionário

O mercado editorial científico movimenta bilhões de dólares por ano com cobrança de assinaturas e taxas para publicação. Editoras mais conhecidas chegam a cobrar mais de 5 mil dólares para aceitar a inscrição de um estudo – sem qualquer garantia de publicação, pois tudo depende do resultado da análise do conteúdo.

A grande diferença entre os chamados preprints e artigos publicados em revistas tradicionais é que neste último caso há o que o mundo científico chama de revisão por pares. Ou seja, um cientista da mesma área revisa o conteúdo do artigo e isso gera uma demora natural na publicação, e também um custo maior por causa do pagamento dos revisores.

Para aumentar o volume de pesquisas abertas, agências de fomento da Europa criaram em 2018 a cOAlisão S (cOAlition S, em inglês, sendo o OA de Open Access e o S de Science). A iniciativa obriga todos os cientistas com pesquisas financiadas pelas fundações signatárias a publicar seus resultados em revistas de acesso aberto. No entanto, muitas editoras que assinam a atual declaração da Wellcome Trust criticaram a cOAlisão S, apontam os cientistas Larivière, Shu e Sugimoto em seu artigo recente.

Desde julho de 2019, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) segue o mesmo caminho e determina que pesquisas financiadas pela fundação sejam disponibilizadas em “um repositório público, ficando disponível para consulta via web por qualquer pessoa e sem custo”. 

Packer afirma que a Scielo, responsável por publicar 22 mil artigos científicos em português por ano, prepara um publicador de artigos preprint que deve ser lançado nos próximos meses. Ele afirma que ainda há uma resistência de grandes editoras, mas diz acreditar que o atual movimento criado para abrir estudos científicos por causa da pandemia de covid-19 deve ser um divisor de águas nessa disputa.

“É extremamente custoso publicar e ler ciência, porque há um mercado bilionário que envolve essas taxas e assinaturas. A maior preocupação dessas grande editoras é como vão sobreviver se tudo for aberto. Essa briga começou há mais de 20 anos, mas o momento atual de divulgação de pesquisas sobre covid-19 deve mostrar definitivamente que precisamos compartilhar conhecimento o mais rápido possível para atender à sociedade”, diz Packer.

Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/pandemia-de-coronav%C3%ADrus-pode-revolucionar-divulga%C3%A7%C3%A3o-cient%C3%ADfica/a-52885115. Acesso em: 11 abr. 2020.

O que significa o COVID-19 para comunicação acadêmica? Quatro áreas a considerar

Em 30 de janeiro de 2020, o surto do novo coronavírus (COVID-19) foi declarado uma emergência de saúde pública de interesse internacional . Em meados de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou que o surto havia atingido o status oficial de pandemia . E hoje, o coronavírus está afetando diretamente 203 países e territórios em todo o mundo.

Em questão de semanas, o mundo mudou além do reconhecimento e nenhum aspecto da sociedade em todo o mundo foi deixado sem interrupções. Nossos governos nacionais agiram individual e diretamente para impor controles crescentes a seus cidadãos: as fronteiras foram fechadas, os doentes e os idosos são segregados e a população em geral fica em quarentena em bloqueios em todo o país. No entanto, neste momento sem precedentes de isolamento social forçado, a lógica da ciência aberta aparece mais claramente do que nunca.

Neste post, discuto o impacto desse surto no cenário das comunicações acadêmicas e as implicações que essas mudanças podem ter sobre os principais interessados.

Ciência aberta

Formuladores de políticas e financiadores

Editores

Pesquisadores e iniciativas comunitárias

Os parágrafos acima foram traduzidos da notícia What does COVID-19 mean for scholarly communication? Four areas to consider, que pode ser lida integralmente no site do Research Consulting.