Direitos autorais e possibilidade de aprendizado e pesquisa remotos durante a crise do Covid-19

Em função das rápidas mudanças que bibliotecas, escolas, universidades e pesquisadores precisaram planejar para continuar apoiando atividades de ensino e pesquisa remotos, a CILIP – The Library and Information Association elaborou uma carta para os ministros de Educação e Esporte, Mídia e Cultura Digital com a proposta de adaptar a lei de direitos autorais do Reino Unido em três pontos:

  1. Uma declaração do governo de que s171 (3) da Lei de Direitos Autorais, Desenhos e Patentes de 1988 pode ser usada como defesa por bibliotecas públicas, organizações de pesquisa e estabelecimentos de ensino enquanto a crise atual durar;
  2. Legislação de emergência ou iniciativas imediatas de lei branda para garantir que as atividades infratoras em circunstâncias normais não sejam acionáveis ​​pelos detentores de direitos;
  3. Licenciamento compulsório e compensação governamental para os detentores de direitos, permitindo que itens inteiros sejam copiados e acessados ​​remotamente.

A íntegra da carta está disponível no site da CILIP, na notícia Copyright and enabling remote learning and research during the Covid-19 crisis.

Pirataria digital de livros na Itália destruiu 8.800 empregos

Mais de um terço dos italianos pratica pirataria editorial (Pixabay / Perfecto_Capucine)

Os danos causados ​​pelas obras de pirataria são estimados em 528 milhões de euros por ano.

300.000 atos de pirataria de livros digitais são contados todos os dias na Itália. Ou quase 107 milhões por ano! Segundo uma pesquisa realizada para a Associazione Italiana Editori e a Federazione Italiana Editori Giornali, o download ilegal de livros desmaterializados está aumentando e causando um duro golpe no setor editorial italiano.

Leia a notícia completa En Italie, le piratage de livres numériques a détruit 8 800 emplois, de Bruno Texier, publicado no Archimag.

Pandemia de coronavírus pode revolucionar divulgação científica

Busca por vacina e medicamentos contra covid-19 sacode bilionário mercado editorial científico, com plataformas liberando acesso a artigos e publicando material ainda não revisado para agilizar compartilhamento de dados.

A atual pandemia de coronavírus, que infectou mais de 340 mil pessoas e matou mais de 14,7 mil até esta segunda-feira (23/03), pode revolucionar a maneira como se divulga ciência. Grandes editoras se comprometeram a liberar o acesso a artigos sobre a covid-19, a doença respiratória causada pelo novo vírus, em suas plataformas. O objetivo é compartilhar conhecimento o mais rápido possível e, assim, contribuir com a busca por uma vacina ou algum tipo de medicamento que possa amenizar os efeitos do coronavírus. 

O acordo, organizado pela fundação Wellcome Trust, foi assinado em 31 de janeiro por 117 editoras de publicações científicas. As signatárias disponibilizam os textos de duas formas: repositórios dos chamados preprints (pré-impressão) – artigos que ainda não foram revisados por outros pesquisadores; e artigos que já submetidos à avaliação, publicados em periódicos científicos.

Movimentos parecidos foram feitos com a Sars, em 2002 e 2003, e com o vírus zika, em 2015, mas a proporção da atual pandemia e o número elevado de estudos que estão sendo publicados diariamente em diversas plataformas é algo inédito e sem precedentes no mundo da ciência, afirma o diretor da plataforma Scielo, Abel Packer.

“A Sars teve uma solução muito mais rápida e provocou menos mortes [mais de 800], então o que ocorre agora com o coronavírus é inédito. O consenso no mundo científico é que o conhecimento precisa ser aberto o mais rápido possível, pois, assim, uma pesquisa ajuda a outra”, explica Packer.

Um artigo científico demora, em média, um ano para ser publicado, devido ao longo processo de revisão. Isso significa que ainda estaríamos a meses de conhecer o primeiro estudo sobre o coronavírus causador da covid-19, batizado de Sars-Cov-2. A divulgação de preprints agiliza o compartilhamento de dados entre cientistas.

A plataforma MedArchive, por exemplo, registrou 680 artigos sobre o coronavírus desde 19 de janeiro. São textos de diversos países, que analisam casos locais e buscam entender padrões da pandemia.

Gigantes do setor editorial científico, como a Springer Nature, criaram espaços específicos para estudos sobre a covid-19. Tudo aberto para quem quiser acessar e ler os estudos. Algo pouco comum para uma editora que chega a cobrar 200 dólares por uma assinatura anual de uma revista do seu catálogo. Em nota, a editora explicou que vê fatores positivos na publicação de preprints.

“As plataformas de preprints, onde os autores podem publicar seus manuscritos submetidos antes da revisão formal por pares, têm a capacidade de transformar significativamente o compartilhamento e o acesso antecipados à pesquisa primária. Também incentivamos os autores a compartilhar seus conjuntos de dados da maneira mais ampla e rápida possível para ajudar a apoiar a transparência da pesquisa e o engajamento com o avanço da descoberta”, informa a nota da Springer Nature.

Packer, da Scielo, também destaca a importância de dados que normalmente ficam em anexos não públicos. “Esses dados coletados em pesquisas que acabam não entrando diretamente nos artigos podem ser importantíssimos em outros estudos, mas muitas vezes se perdem porque ficam em anexos não disponíveis. A ciência precisa ser aberta também nesse caso”, diz.

A DW Brasil entrou em contato com a editora inglesa The Lancet, signatária do acordo da Wellcome Trust e que também criou um espaço aberto para artigos relacionados à covid-19. Até sábado, a plataforma contava com 148 estudos. Em nota, a editora informou que não conseguiria responder às perguntas encaminhadas pela reportagem porque todos os editores estavam empenhados em revisar “o grande volume de artigos sobre covid-19” recebidos.

Apesar de toda essa movimentação da comunicade científica, os cientistas Vincent Larivière (Canadá), Fei Shu (China) e Cassidy Sugimoto (Estados Unidos) afirmam, num artigo publicado em 5 de março sobre compartilhamento de estudos sobre a covid-19, que os esforços deveriam ser ainda mais amplos. Eles apontam que existem estudos sobre coronavírus desde a década de 1960 que podem ajudar também na busca atual por soluções, mas que 51% desses textos estão em plataformas fechadas para assinantes.

“Apelamos à comunidade científica – publishers, financiadores e sociedades – para que se mantenham fiéis à sua palavra. A declaração do Wellcome Trust é inequívoca: o compartilhamento rápido da pesquisa é necessário para informar o público e salvar vidas. Enquanto aplaudimos o trabalho que está sendo realizado em meio a esta crise, esperamos que este momento sirva como catalisador de mudanças”, expõe o artigo.

De cientistas para cientistas

O acesso livre a estudos científicos também tem um lado negativo: a falta de conhecimento do público leigo sobre como as informações devem ser assimiladas. Na última quinta-feira, o presidente dos estados Unidos, Donald Trump, afirmou numa coletiva de imprensa que testes indicaram que cloroquina, e um derivado seu, a hidroxicloroquina, seriam eficientes no tratamento contra covid-19. O presidente afirmou que o medicamento deveria estar disponível para tratar a doença “quase imediatamente”.

A procura pelo medicamento, usados por pacientes com malária, lúpus e artrite reumatoide, foi imediata. Nos dias seguintes, várias farmácias dos EUA já não tinham o remédio, prejudicando diretamente os pacientes que já fazem uso dele. A procura também aumentou em outros países, inclusive no Brasil.

Neste sábado, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) enquadrou como medicamentos de controle especial as substâncias hidroxicloroquina e cloroquina, para evitar que pessoas que não precisam efetivamente deles provoquem o desabastecimento do mercado. A imprensa brasileira relatou falta do remédio nas farmácias.

No mesmo dia, foi a vez do presidente Jair Bolsonaro apostar em pesquisas preliminares com a hidroxicloroquina. Ele divulgou um vídeo em suas redes sociais afirmando que o laboratório do Exército irá ampliar a produção do medicamento e disse ainda que “tem fé que brevemente o Brasil ficará livre do vírus”.

Neste domingo, o ministro da Saúde, Henrique Mandetta, alertou a população contra o uso da hidroxicloroquina, afirmando que a medicação tem “efeitos colaterais intensos” e que seu uso deve ser acompanhado por um médico. Mandetta explicou que os testes realizados com o medicamento foram feitos em poucos pacientes, então não é possível garantir a sua eficiência contra o vírus.

Casos como o da cloroquina ou hidroxicloroquina podem se repetir nos próximos dias por causa do clima de medo nos países que estão enfrentando a covid-19, e também pela falta de prática da população em ler artigos científicos, afirma Sabine Righetti, coordenadora da Agência Bori, criada em fevereiro para ser uma ponte entre pesquisadores e jornalistas.

“O conteúdo de artigos científicos é feito por cientistas e para cientistas. Um pesquisador não lê achando que aquilo é um fim, mas um passo a mais no estudo de determinado tema. Por isso o risco de um texto ser mal compreendido é alto, como aconteceu com a fala do Trump”, diz Righetti.

A Agência Bori foi fundada justamente com o objetivo de diminuir o distanciamento entre o conteúdo de pesquisas científicas e a população. A plataforma serve como intermediário entre jornalistas e cientistas, buscando esclarecer temas complexos. Sobre coronavírus, há um banco de informações com contato de 35 cientistas aptos a falar sobre aspectos da atual pandemia. Em pouco mais de um mês de funcionamento, a agência já soma mais de 600 jornalistas cadastrados .

Mercado bilionário

O mercado editorial científico movimenta bilhões de dólares por ano com cobrança de assinaturas e taxas para publicação. Editoras mais conhecidas chegam a cobrar mais de 5 mil dólares para aceitar a inscrição de um estudo – sem qualquer garantia de publicação, pois tudo depende do resultado da análise do conteúdo.

A grande diferença entre os chamados preprints e artigos publicados em revistas tradicionais é que neste último caso há o que o mundo científico chama de revisão por pares. Ou seja, um cientista da mesma área revisa o conteúdo do artigo e isso gera uma demora natural na publicação, e também um custo maior por causa do pagamento dos revisores.

Para aumentar o volume de pesquisas abertas, agências de fomento da Europa criaram em 2018 a cOAlisão S (cOAlition S, em inglês, sendo o OA de Open Access e o S de Science). A iniciativa obriga todos os cientistas com pesquisas financiadas pelas fundações signatárias a publicar seus resultados em revistas de acesso aberto. No entanto, muitas editoras que assinam a atual declaração da Wellcome Trust criticaram a cOAlisão S, apontam os cientistas Larivière, Shu e Sugimoto em seu artigo recente.

Desde julho de 2019, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) segue o mesmo caminho e determina que pesquisas financiadas pela fundação sejam disponibilizadas em “um repositório público, ficando disponível para consulta via web por qualquer pessoa e sem custo”. 

Packer afirma que a Scielo, responsável por publicar 22 mil artigos científicos em português por ano, prepara um publicador de artigos preprint que deve ser lançado nos próximos meses. Ele afirma que ainda há uma resistência de grandes editoras, mas diz acreditar que o atual movimento criado para abrir estudos científicos por causa da pandemia de covid-19 deve ser um divisor de águas nessa disputa.

“É extremamente custoso publicar e ler ciência, porque há um mercado bilionário que envolve essas taxas e assinaturas. A maior preocupação dessas grande editoras é como vão sobreviver se tudo for aberto. Essa briga começou há mais de 20 anos, mas o momento atual de divulgação de pesquisas sobre covid-19 deve mostrar definitivamente que precisamos compartilhar conhecimento o mais rápido possível para atender à sociedade”, diz Packer.

Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/pandemia-de-coronav%C3%ADrus-pode-revolucionar-divulga%C3%A7%C3%A3o-cient%C3%ADfica/a-52885115. Acesso em: 11 abr. 2020.

UNESCO mobiliza 122 países para promover ciência aberta e cooperação para enfrentar à COVID-19

A UNESCO organizou uma reunião online no final de março entre representantes de 122 países com objetivo de realizar intercâmbio sobre o papel da cooperação internacional em ciência e o aumento dos investimentos no contexto da COVID-19.

A questão-chave relativa à ciência aberta foi o principal tópico de discussão.

A diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, pediu aos governos que reforcem a cooperação científica e integrem a ciência aberta em seus programas de pesquisa, para prevenir e mitigar crises mundiais.

Foto: UNESCO

Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) organizou uma reunião online no final de março entre representantes de 122 países com objetivo de realizar intercâmbio sobre o papel da cooperação internacional em ciência e o aumento dos investimentos no contexto da COVID-19. A questão-chave relativa à ciência aberta, pela qual a UNESCO tem trabalhado na elaboração de uma Recomendação Internacional desde novembro de 2019, foi o principal tópico de discussão.

A diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, pediu aos governos que reforcem a cooperação científica e integrem a ciência aberta em seus programas de pesquisa, para prevenir e mitigar crises mundiais. “A pandemia da COVID-19 fez com que nós tomássemos consciência sobre a importância da ciência, tanto na pesquisa como na cooperação internacional. A crise atual também demonstra a urgência de se intensificar o compartilhamento de informações por meio da ciência aberta. Chegou a hora de nos comprometermos todos”, afirmou a diretora-geral da UNESCO.

Entre os participantes da reunião estavam 77 ministros, inclusive o ministro brasileiro, Marcos Cesar Pontes, bem como secretários governamentais representando um total de 122 países. A reunião também contou com a presença de Mariya Gabriel, comissária europeia para Inovação, Pesquisa, Cultura, Educação e Juventude; Sarah Anyang Agbor, comissária da União Africana (UA) para Recursos Humanos, Ciência e Tecnologia; Moisés Omar Halleslevens Acevedo, ex-vice-presidente da Nicarágua; e a dra. Soumya Swaminathan, cientista-chefe da Organização Mundial da Saúde (OMS).

De acordo com a cientista-chefe da Organização Mundial da Saúde (OMS), dra. Soumya Swaminathan, a colaboração é fundamental para o compartilhamento do conhecimento e dos dados, bem como para o avanço da pesquisa sobre a COVID-19. “Em uma época em que barreiras comerciais e de transporte impedem o movimento de materiais essenciais, é importante destacar que a ciência deve liderar a resposta global a esta pandemia”, explicou a cientista-chefe da OMS.

A representante da União Africana (UA), sra. Anyang Agbor, reforçou que a África necessita de uma iniciativa de pesquisa mais forte, que mobilize as universidades, bem como os setores público e privado. “No final de 2019, a UA reconheceu a ciência aberta como um divisor de águas no combate às desigualdades”, afirmou a representante da UA.

A comunidade científica internacional tem se mobilizado há várias semanas em torno da emergência da COVID-19, sobretudo no compartilhamento e na disponibilização universal dos resultados de pesquisas, assim como na reformulação sem precedentes de seus métodos de trabalho. Os principais periódicos científicos, por exemplo, tornaram acessíveis todos os conteúdos referentes ao vírus e mais de mil artigos de pesquisa foram publicados com acesso aberto em resposta ao apelo da OMS. Além disso, em poucos dias foram estabelecidos consórcios internacionais de pesquisa para permitir o rápido progresso, incluindo o sequenciamento do DNA do vírus.

O ministro de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação do Brasil, Marcos Pontes, reforçou: “Todos nós dependemos da ciência para sobreviver”.

No que diz respeito à ciência aberta, a agenda da reunião incluiu:
– A partilha de informações, medidas de apoio à pesquisa científica e a redução da lacuna de conhecimento entre os países.
– A mobilização de tomadores de decisão, pesquisadores, inovadores, editores e sociedade civil para permitir o livre acesso a dados científicos, resultados de pesquisas, recursos educacionais e instalações de pesquisa.
– O reforço dos vínculos entre as decisões científicas e as políticas, para atender às necessidades da sociedade.
– A abertura da ciência para a sociedade enquanto as fronteiras estiverem fechadas.

Disponível em: https://nacoesunidas.org/unesco-mobiliza-122-paises-para-promover-ciencia-aberta-e-cooperacao-para-enfrentar-a-covid-19/. Acesso em: 11 abr. 2020.

O que significa o COVID-19 para comunicação acadêmica? Quatro áreas a considerar

Em 30 de janeiro de 2020, o surto do novo coronavírus (COVID-19) foi declarado uma emergência de saúde pública de interesse internacional . Em meados de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou que o surto havia atingido o status oficial de pandemia . E hoje, o coronavírus está afetando diretamente 203 países e territórios em todo o mundo.

Em questão de semanas, o mundo mudou além do reconhecimento e nenhum aspecto da sociedade em todo o mundo foi deixado sem interrupções. Nossos governos nacionais agiram individual e diretamente para impor controles crescentes a seus cidadãos: as fronteiras foram fechadas, os doentes e os idosos são segregados e a população em geral fica em quarentena em bloqueios em todo o país. No entanto, neste momento sem precedentes de isolamento social forçado, a lógica da ciência aberta aparece mais claramente do que nunca.

Neste post, discuto o impacto desse surto no cenário das comunicações acadêmicas e as implicações que essas mudanças podem ter sobre os principais interessados.

Ciência aberta

Formuladores de políticas e financiadores

Editores

Pesquisadores e iniciativas comunitárias

Os parágrafos acima foram traduzidos da notícia What does COVID-19 mean for scholarly communication? Four areas to consider, que pode ser lida integralmente no site do Research Consulting.

Bibliotecas universitárias oferecem “empréstimos” online de livros protegidos por direitos autorais

A crise do coronavírus forçou o fechamento de bibliotecas em todo o mundo, privando o público do acesso a milhões de livros impressos. Os livros com idade suficiente para serem de domínio público podem estar disponíveis para download gratuito online. Muitos livros recentes estão disponíveis para empréstimo em formato de e-book. Mas existem muitos outros livros – especialmente aqueles publicados em meados do século XX – que são difíceis de acessar sem a necessidade de ir a uma biblioteca física.

Um consórcio de bibliotecas universitárias chamado HathiTrust anunciou recentemente uma solução para esse problema, chamada Serviço de Acesso Temporário de Emergência. Ele permite que as bibliotecas participantes do HathiTrust ofereçam aos seus usuários digitalizações digitais de livros que eles possam “emprestar” e ler online.

Leia a notícia completa em inglês aqui: University libraries offer online “lending” of scanned in-copyright books.

A queda do paywall em tempos de pandemia: o valor da informação

(Foto: Reprodução/What’s New In Publishing)

Depois de 30 de janeiro, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou o surto do novo coronavírus como emergência pública internacional, as principais editoras científicas do mundo, como The LancetNew England Journal of Medicine e Nature, decidiram compartilhar os estudos sobre o Covid-19 de forma gratuita. Ou seja, sem paywall, a obrigatoriedade de pagar para ler o conteúdo.

De lá para cá, a OMS subiu o alarme: de emergência para pandemia, classificação estabelecida no último dia 11 de março. Foi a vez, então, de os jornais tirarem o paywall de notícias relacionadas à doença, como o The New York Times e o Wall Street Journal, dos Estados Unidos, e o Público, de Portugal. No Brasil, os três principais periódicos do país, a Folha de S.PauloO Globo e O Estado de S.Paulo, seguiram pelo mesmo caminho.

Compreender quando e por que paywalls são derrubados é tema de um estudo publicado em 2016 no International Journal of Communication. Os pesquisadores Mike Ananny e Leila Bighash, da Universidade de Southern California, listaram as justificativas mais comuns, entre as quais: informar o público em crises e emergências; aumentar a exposição de eventos planejados ou ocasiões especiais; aumentar audiência e experimentar o que é o sistema de paywall estabelecido como modelo de negócio das publicações. Para eles, os casos de suspensão de paywall refletem um encontro entre as lógicas comerciais e democráticas das empresas.

“Quando organizações jornalísticas derrubam paywalls – ou decidem não fazê-lo – para apenas algumas partes de campanhas eleitorais, certas emergências, geografias particulares, conteúdos específicos ou parceiros publicitários selecionados, mostram como o poder de seletivamente decodificar notícias reflete o poder de definir o escopo, a duração e a significância de eventos e círculos eleitorais – um poder que somente organizações com reservas econômicas […] possuem”, escrevem (itálico deles, tradução nossa).

A gratuidade de acessar determinado grupo de notícias relacionadas ao Covid-19 traz questões sobre seus efeitos. Por exemplo, a audiência aumentou? Mais pessoas acessaram os sites dos jornais? Quanto tempo elas passaram lendo notícias? Delas, quantos são não assinantes? Quantos tornaram-se assinantes? Em que medida os leitores, assinantes ou não, mudaram de hábito? Essas são algumas perguntas que deverão ser respondidas a partir da experiência atual.

Onde nunca houve paywall

Manter o leitor informado pode levá-lo a adotar medidas de prevenção e compreender a gravidade da situação. Os leitores, porém, são pequena parcela da população brasileira. Isso não significa que a outra parcela não se informa, mas o faz por outros meios, como canais abertos de televisão, rádio ou redes sociais. Plataformas como Facebook, Twitter e YouTube disseram atuar para combater a disseminação de conteúdos falsos relacionados ao vírus. A ação, contudo, não impede que esses materiais mentirosos sejam criados e circulem pelas redes. E é justamente aí que mora o grande perigo.

O WhatsApp talvez seja a plataforma mais propícia para a divulgação livre de fake news. Está circulando um vídeo em que Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e dono do Grupo Record, diz que não é preciso se preocupar com o coronavírus porque é uma tática de Satanás, que trabalha com o medo, o pavor e a dúvida.

O “bispo” responsabiliza o jornalismo e os veículos de imprensa por disseminar o pavor em relação à doença por motivos financeiros. “O pavor que a mídia tem usado para levar as populações, as nações, apavoradas com respeito a esse vírus, coronavírus. Por trás de toda essa campanha do coronavírus existe um interesse econômico. E onde há interesse econômico, aí tem.”

Macedo recomenda outro vídeo, do patologista Beny Schmidt, professor da Universidade Federal de São Paulo, que ignora a literatura científica e os estudos da Organização Mundial da Saúde ao afirmar que o vírus não é letal e não faz mal a ninguém. “A gente morre de tantas coisas, mas de coronavírus a gente não morre”, diz. A fala mostra que títulos acadêmicos e profissionais nem sempre são garantia de informação correta.

Depois do vídeo de Schmidt, Macedo diz: “Fica aí o recado do doutor, que é um cientista e que tem fundamentos científicos para falar o que ele falou com certeza”. Em nome de um suposto embasamento científico, um bispo recorre ao cientista para falar o que quer, não o que os fatos indicam. Isso é uma mostra de como a ciência (ou parte dela) pode ser cooptada para justificar interesses e falas de pessoas influentes em seu meio.

Os desafios para uma comunicação efetiva do Covid-19, para que as pessoas entendam a gravidade da situação e adotem medidas preventivas, crescem quando o líder de uma das maiores igrejas evangélicas do país e dono de uma emissora de televisão fala bobagens amparado em outras bobagens, essas ditas por um professor acadêmico.

A bobagem, aliás, tem espaço de sobra no país, visto que são proferidas dia sim, dia também, por um presidente que esteve em contato com pessoas infectadas pelo vírus, contraria as indicações médicas ao ir a um evento público e chama de “histeria” as medidas adotadas para combater a transmissão do coronavírus.

A queda dos paywalls em tempos de pandemia é decisão importante para que as notícias apuradas e embasadas proliferem mais que mentiras e boatos. Ela talvez dê ressonância ao conteúdo jornalístico diante da concorrência do bispo e do presidente, que influenciam milhões de pessoas pelo país. A dúvida central, cuja resposta pode trazer lições importantes para a próxima crise mundial de saúde, é: se nem a gratuidade de matérias sobre coronavírus aumentar o número de leitores, o que o fará? A sobrevivência do próprio jornalismo depende de como vamos atravessar esse muro.

***

Daniel Dieb é jornalista de ciência, saúde e tecnologia. Escreve para o UOL e fez parte do programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha de S.Paulo. É colaborador da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência (RedeComCiência).

Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/coronavirus/a-queda-do-paywall-em-tempos-de-pandemia-o-valor-da-informacao/. Acesso em: 25 mar. 2020.

Webinar CopyTalk: Exceções e limitações para bibliotecas em todo o mundo

Junte-se à rede ALA de direitos autorais, legislação, educação e advocacy (CLEAN) para um seminário online gratuito CopyTalk às 14h Leste na quinta-feira, 12 de março.

Apresentado por Kenneth Crews, o webinar fornecerá um tour pelos direitos autorais internacionais, destacando a pesquisa sobre exceções e limitações de direitos autorais em vários países. Os Estados Unidos são um modelo, ou não? À medida que mais países reescrevem suas leis de direitos autorais, alguém nos superou? Quais são as tendências nos países em desenvolvimento? Exportamos com sucesso o uso justo? Você também aprenderá sobre uma versão internacional da Seção 108.

Kenneth D. Crews é advogado, autor, professor e consultor internacional de direitos autorais. Por quase 30 anos, sua pesquisa, formulação de políticas e ensino se concentraram em questões de direitos autorais relacionadas à educação e pesquisa. Ele ingressou na faculdade de direito da Universidade de Indiana em 1994, onde fundou e dirigiu o primeiro escritório de direitos autorais baseado em universidade do país. Em 2008, o professor Crews mudou-se para a Universidade de Columbia para lecionar na faculdade de direito e estabelecer um escritório de política de direitos autorais semelhante. Recentemente, ele retornou à sua cidade natal, Los Angeles, e ingressou em um escritório de advocacia, onde representa universidades, bibliotecas, autores, editores e clientes na indústria do entretenimento. O Dr. Crews foi o primeiro destinatário do Patterson Copyright Award da American Library Association e recebeu o Mark T. Banner Award da American Bar Association. Ele é formado pelas universidades Northwestern e Washington e é Ph.D. da UCLA. Ele é autor de inúmeras publicações, incluindo o livro Copyright Law for Librarians and Educators (4ª ed., 2020).

Para participar, basta participar do seminário online através do Zoom em 12 de março. Nenhum registro antecipado é necessário. Uma gravação do webinar também estará disponível gratuitamente após a apresentação.

Disponível em: https://www.acrl.ala.org/acrlinsider/archives/19215 . Acesso em: 5 mar. 2020.

University copyright/scholarly communication offices: analysis of their services and staff profile

Foi publicado no Journal of Academic Librarianship (v. 46, n. 2, março 2020) o artigo University copyright/scholarly communication offices: analysis of their services and staff profile, de autoria de Juan Carlos Fernández-Molina (meu coorientador do mestrado), Daniel Martínez-Ávila (meu orientador do mestrado) e Eduardo Graziosi Silva.

É muito satisfatório compartilhar esse artigo, pois é resultado da minha dissertação, cujo título é Competências do bibliotecário de referência para atuação nos direitos autorais (texto integral disponível a partir de maio de 2020 em função de termos submetido para a revista).

Compartilho o abstract:

Questions surrounding copyright and its impact on the possibilities of using scientific articles, theses, and other types of intellectual works have been growing in volume and complexity. Several studies show that neither university professors nor students possess adequate knowledge or are prepared to face such issues. This void has a negative impact on academic activities. In view of the situation, some university libraries have dedicated special effort to provide their users with more specific information related to these topics, giving rise to the new professional profile of copyright librarian, or even developing a new library section denominated copyright office. This new role has gradually expanded to deal with more global problems of scholarly communication. The present study analyzes the services offered by these offices and the professional and academic profile of the staff involved. Results point to a healthy degree of maturity and consolidation, together with a gradual broadening of the subject areas they cover.

Keywords

Copyright; Academic libraries; Copyright office; Scholarly communication office; Copyright librarian; Copyright officer; Scholarly communication librarian

O artigo está disponível gratuitamente a partir de hoje (12/02/20) até 02/04/2020 pelo link https://authors.elsevier.com/a/1aZ94MYb6LuTF.

Boa leitura e qualquer dúvida, deixe um comentário!

Redes universitárias assinam “Declaração de Sorbonne” sobre direitos de dados de pesquisa

Várias redes de universidades de pesquisa intensiva assinaram uma declaração na Cúpula de Direitos de Dados de Pesquisa na Universidade de Sorbonne, Paris, em 27 de janeiro de 2020. A chamada “Declaração de Sorbonne” sobre direitos de dados de pesquisa afirma o compromisso das universidades signatárias de tornar acessíveis dados de pesquisa e exigir uma estrutura legal clara para regulamentar esse compartilhamento e fornecer os meios para implementá-lo.

A declaração foi assinada por nove redes, representando mais de 160 das principais universidades de pesquisa intensiva do mundo. Aborda a comunidade científica internacional, bem como órgãos de fomento à pesquisa e governos. Segundo os signatários, os direitos de dados de pesquisa são uma questão essencial para a qualidade e transparência da pesquisa, bem como uma questão econômica crucial, pois esses dados são financiados em grande parte pelo dinheiro público em todo o mundo. O objetivo é, portanto, tornar esses dados acessíveis, a fim de acelerar descobertas científicas e desenvolvimento econômico.

Para maiores informações:

LERU – news

Sorbonne Declaration

Tradução livre do texto University networks sign “Sorbonne Declaration” on research data rights, acessado em 1º de fevereiro de 2020.